Primaveras audiovisuais

 

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Para aonde e porquê marcha a humanidade?

LB

Quem já participou ou participa de algum movimento social ou partido político, provavelmente, já se perguntou sobre o que é capaz de mobilizar as pessoas. Ao mesmo tempo em que a resposta parece escorregadia se mostra bastante palpável em alguns eventos que têm sido amplamente noticiados. No Brasil e no mundo se fala de marcha da maconha, marcha contra as drogas, marcha de Jesus, enfim, eventos que têm mobilizado uma quantidade significativa de pessoas.

Entre março e abril de 1930, Mahatma Ghandi e vários de seus discípulos iniciam uma marcha de protesto contra o domínio britânico na Índia. Naquele contexto, a metrópole britânica havia obrigado a Índia, sua colônia, a comprar bens manufaturados apenas do Reino Unido, proibindo os indianos inclusive de extrair sal em seu país. A marcha durou 25 dias, tinha cerca de 400 quilômetros do interior em direção ao litoral e o grupo parava de cidade em cidade para descansar, de maneira que conquistavam cada vez mais adeptos. Em 6 de abril, junto com cerca de 50 mil indianos, Gandhi foi preso, o que não impediu que a marcha chegasse a seu destino nas salinas em direção a Bombaim.

Antes disso, no Brasil, a Coluna Miguel Costa Prestes, mais conhecida como Coluna Prestes, foi um movimento liderado por militares, que faziam oposição à Republica Velha e às classes dominantes da época. Teve início em abril de 1925, no governo de Artur Bernardes (1922-1926).

No início da década de 1920, o Brasil vivia sob o domínio das oligarquias rurais e setores médios urbanos, como os militares, por exemplo, que começaram a questionar este poder e a pressionar por mais investimentos nas forças armadas.

O primeiro levante militar ocorreu no Rio de Janeiro, em 1924. Liderado pelos tenentes do exército, ficou conhecido como Tenentismo. surgiu uma nova rebelião, desta vez em São Paulo. Depois de muitos combates contra as tropas fiéis ao governo, os revoltosos se refugiaram no interior do Estado.

Enquanto isso, Luis Carlos Prestes, também militar, organizava outro grupo no Rio Grande do Sul. Em abril de 1925; as duas frentes de oposição: a Paulista liderada por Miguel Costa, e a Gaúcha, por Prestes, uniram-se em Foz do Iguaçu e partiram para uma caminhada pelo Brasil.

Com aproximadamente mil e quinhentos homens, a Coluna Prestes percorreu 25.000 quilômetros. Durante dois anos e meio atravessou 11 estados. Do sul, o grupo rumou para centro-oeste do país, percorreu o nordeste, até o estado do Maranhão. Na volta, os combatentes refizeram o caminho, até chegar à fronteira com Bolívia.

Nas cidades por onde passava, a Coluna Prestes despertava apoio da população e a atenção dos coronéis, que também eram alvo das críticas do movimento. Sempre vigiados por soldados do governo, os revoltosos evitavam confrontos diretos com as tropas, por meio de táticas de guerrilha.

Por meio de comícios e manifestos, a Coluna denunciava à população a situação política e social do país num ato quixotesco de Prestes. Quixotesco, mas qual visionário não seria um Don Quixote? Com sua marcha, a Coluna ajudou a abrir os caminhos para a Revolução de 30, enfraquecendo ainda mais o já fragilizado  sistema oligárquico vigente.

Luís Carlos Prestes tornou-se o ícone desta Marcha e ficou conhecido como “O cavaleiro da esperança”. Ele não foi o principal líder da Coluna. Quem tomou a frente do percurso foi Miguel Costa. Mas Prestes era o idealizador, aquele que alimentava o sentimento de liberdade política, voto secreto e justiça social.

Ainda no Brasil, em 1964, o Presidente João Goulart anunciou suas reformas de base. Em resposta, um movimento denominado Marcha da Família com Deus pela Propriedade conseguiu mobilizar cerca de 300 mil pessoas em repúdio a Goulart e suas reformas. A mobilização surpreendeu e sinalizou aos militares brasileiros que uma fração significativa da população era avessa às políticas de Goulart. Cientes do apoio da classe média e pressionados pelo governo estadunidense, os militares promovem um golpe de estado que lhes dão o comando das rédeas da nação até 1985. O Brasil passa a ser governado através de Atos Institucionais. Nossos avós e pais viveram um período em que valores democráticos, como a liberdade de expressão e participação política foram absolutamente cerceados. Pessoas foram mortas e muitas famílias desconhecem até hoje o destino que tiveram seu parentes, filhos, irmãos senão silenciados nos porões da Ditadura Militar.

No final da década de 1970, tem inicio um lento processo de redemocratização. Nos dias 10 e 16 de abril de 1984 os opositores do regime mobilizam uma enorme massa populacional, integrada também pela mesma classe média que serviu de base para os militares em 1964. Primeiro na Praça da Candelária, no Rio, depois na Praça do Anhangabaú, em São Paulo, são mobilizadas cerca de um milhão de pessoas. É o movimento das “Diretas Já”. Em 1985 a eleição presidencial não foi direta. Foi eleito por voto indireto Tancredo Neves, assumindo a presidência José Sarney, já que Tancredo faleceu antes de tomar posse. Ambos políticos chancelados pelos militares.

No início de 2011, um protesto chamado “marcha das vadias” se espalhou de Toronto, no Canadá, para outras capitais mundiais como um viral. A causa inicial teria sido o fato de um policial ter dito que as mulheres, na Universidade de Toronto, não deviam se vestir como vadias para evitar os estupros no campus.

Em 1987 teve início em Londres a “Marcha de Jesus”, que chegou ao Brasil e hoje coloca em marcha mais de sete milhões de fiéis.

A Primavera Árabe e a Marcha dos Indignados

André Gregório

O ocidente criou para si uma imagem tão forte de ter alcançado democracia perfeita que perdeu por completo a capacidade da autocrítica. No momento que o mundo árabe se rebelou contra seus governantes autoritários e conservadores, através de protestos e até mesmo luta armada, todos os países ocidentais se manifestaram a favor da luta do povo árabe pela liberdade e pelos seus direitos. O ocidente deu até mesmo um nome à essa luta: a Primavera Árabe. No primeiro momento uma atitude nobre por parte do ocidente. Alguns países até se uniram para apoiar a luta do povo líbio contra seu líder.

Alguns meses depois, os representantes dos governos ocidentais vêem o mesmo acontecer em seu próprio quintal. Com protestos na Inglaterra, nos Estados Unidos (Washington, Boston, Chicago, Los Angeles, Miami), no Canadá, Espanha, França, Itália entre outros, a Marcha dos Indignados dá forma de protesto ao grito por liberdade e direitos do povo ocidental. E os mesmos representantes que deram armas à luta pela liberdade do povo árabe , viraram as mesmas armas contra a luta de “seu” próprio povo. Calaram o direito do seu próprio povo de contestar e transformar. Assim como fizeram e estão fazendo os tão criticados líderes árabes.

Sem entrar muito no mérito ideológico, cabe ao ocidente perceber que está longe do ideal. Cabe ao ocidente perceber que a evolução social de cada cultura se da a partir dela mesma, e não imposta por uma cultura que se considera superior sem sequer notar que está ruindo de dentro pra fora; apodrecendo.

Primaveras audiovisuais

LB

Temos acompanhado a crescente adesão da juventude nas redes sociais através da Internet e o crescimento, nos últimos anos, de uma série de atos e mobilizações sociais marcadas pela grande rede de comunicação. Ao sair do espaço das redes virtuais e chegar às ruas, os movimentos sociais ganharam força e popularidade, e com eles muitos registros dessas ações cívicas vêm sendo realizados Brasil à dentro.

Um dos temas abordados pelos novos cineastas, documentaristas, são as manifestações sociais, as populações insatisfeitas nas ruas exigindo mudanças de governo, de leis, de sistemas econômicos.

A 9ª Mostra Cinema Popular Brasileiro, querendo dar visibilidade a produções audiovisuais e cinematográficas que tiveram origem em algum manifesto popular.

Pretendemos lançar uma reflexão sobre a democratização das novas mídias digitais no Brasil, a maior capacidade de acesso da juventude aos novos suportes de captação de imagem, e a difusão audiovisual no cenário das mobilizações sociais.

O fato de termos estabelecido este tema não significa que apenas filmes relacionados a ele possam participar da Mostra. O tema é uma inspiração, não deve ser restritivo.